HÁ UMA PRECE NOS VERSOS QUE DITO

Há um lugar
escondido entre a aridez dos montes
e a fúria das águas.
É um Éden que me resgata e refresca,
que me corre nas veias
e na profundidade dos sonhos.
Há uma paz
que sobrevoa nos fumos libertos
pelas chaminés deste tempo
sem fulgor.
Há um povo
que me habita e me move.
Uma gente vestida
da cor dos salgueiros
vergados aos vendavais de dezembro,
uma aflição camuflada
nas cores garridas das laranjas maduras,
das magnólias florescidas,
dos alpendres caiados,
que lhes alegram o destino
dos invernos sombrios.
Há um orgulho
nos pés castigados pela lama parda
e nas mãos gretadas pela nortada agreste.
Há uma prece
nos versos que dito.
Oração de dar voz aos que a não têm.
Esses que me abordam nos carreiros da memória.
Esses que me consumo a procurar
nas viagens em que me percorro.
texto de Francisco José Rito
imagem de Manuel Luz



 DEIXAI-ME SER TUDO O QUE HÁ EM MIM

Deixai-me ser mala aberta na chegada,
coração apertado na partida.
Ser folha que voa e rodopia
e cai aos pés da árvore que a pariu.
Ser criança e correr como os dias de março
ou a espuma branca que se solta das vagas
e galopa pelo ventre da margem salgada.
Deixai-me rolar nu sobre o verde das ilhas,
besuntar-me todo no azeite da terra
cair nos charcos, atolar-me nas talocas
saltar regueiras e fugir, desvairado,
como as velas fogem ao sopro do vento
e os homens fogem da má sorte.
Deixai-me inebriar de tardes outonais,
encarnar a alma desta terra
e ser-lhe os filhos todos que partiram.
Socorrer-me dela e chorar-lhe no colo,
como choram os amores que vão para a guerra
ou os que enterram a mãe morta.
Deixai-me ser tudo o que há em mim.
Ser pranto, canto, partida e regresso.
Perder-me e encontrar-me...
E depois, vestido de palavras,
voltar ao principio de tudo
e ser o mais belo poema.
Francisco José Rito
(imagem de Maggie Luijer)



 DOR OU A ÚLTIMA CARTA

A cruz vem-lhe de longe
dos confins da tempestade
velas rasgadas
mareando à bolina
nas veias obstruídas pela dor d´alma.
Chegou a ser ilha
com a fascinante sedução das ilhas
o corpo em chama
desenhando rituais na pele do vento
berço de danças exóticas.
Depois submergiu
e a música fundiu-se no lodo.
O tempo das maçãs extinguiu-se no tempo
e os frutos caíram na relva molhada.
Jamais o seu sol sucumbirá
aos caprichos da noite
mas sim, há-de ser trevas
eternizando a beleza na escuridão.
Francisco José Rito, in ISTO OU AQUILO (a publicar)



Urge recomeçar

ser mão aberta

onde brotem sons

e cores por decifrar,

cheiros por inventar

e outros mimos.


Recomeçar:

regressar ao húmus

renascer da terra

ser água e gelo e fogo

beber vento e brisa

viver outras vidas

outros espasmos

novas dores.


Francisco José Rito






 

ÂMAGO


Amar

é apagar com beijos

palavras que ardem na boca.


Cobrar

promessas feitas

na linguagem dos corpos.


Desvendar segredos

que os dedos escreveram

na pele do desejo


no âmago da noite

no silêncio da cama.


Francisco José Rito



FATIMA SANTOS 


As fotos retratam o álbum duplo de Fátima Santos, artista portuguesa radicada na área metropolitana de Nova Iorque.

São 25 composições, incluindo êxitos dos anos 50/ 60, música tradicional, fado de Coimbra, originais, baladas e fado de Lisboa.
Poesia de Cecília Meireles, José Afonso, Pedro Luís Antunes, David Mourão-Ferreira, Almeida Garrett, Alexandre O'Neill, Manuel Alegre, João Martins, Tiago Torres da Silva, Ana Hatherly, Francisco José Rito, Maria de Lourdes de Carvalho, Tavares de Melo, Frei Hermano da Câmara, António Aleixo, Fernando Pessoa, João Nobre e Raúl Ferrão.
Música de José Luiz Iglésias, José Afonso, Pedro Luís Antunes, Teresa Silva Carvalho, Alain Oulman, António Portugal, Armandinho, José António Sabrosa, Tavares de Melo, Frei Hermano da Câmara, António Tabueira e José Galhardo.
Arranjos, produção e direção musical de José Luiz Iglésias (guitarras portuguesa e clássica). Os outros companheiros de viagem são: Rob Curto (acordeão e piano), Will Holshouser (acordeão), contrabaixo (Andy Eulau), António e Carlos de Jesus (guitarra portuguesa), Paulo Larguesa (guitarra clássica), Connie Grossman (flauta), Todd Isler (percussões), Nancy Vanderslice (oboe), Elizabeth Kalfayan (violoncelo), Diógenes P. Homem (guitarra clássica), Hector del Curto (bandoneão), Mike Cohen (saxofone soprano) e Diane Montalbine (violino), Luís Manuel (coros).
Grafismo: Luís Iglésias (Drop Design).
Gravado e misturado por John Diaz (Skylight Studios e Songs for You).
Masterizado por Guido Diaz.
Que honra ver o meu nome ao lado de tantos autores consagrados. Muitos parabéns à Fátima e ao José Luíz Iglésias. Um abraço amigo e grato.























































 

NA ESTAÇÃO


Não ligo aos anúncios

que falam de países que não quero conhecer

de partidas que não me levarão de mim

de destinos que não estão no meu caminho.


Não ligo à voz estridente

da madame que grita ao telemóvel

ou ao casal que geme na última carruagem.


Não ligo à corrida do pica

que persegue o rapaz por entrar sem bilhete

ou aos berros dos polícias

atrás do gangue que grafitou o comboio das 7:00.


Não ligo ao jornalista

que anuncia a eleição de um fascista

nem ao comentador que prevê

a utilização de armas nucleares ao fundo do meu quintal.


Eu não luto em guerras que não sei vencer

nem como desse pão que nos dão na boca.


Eu colho fruta que alimente:

dióspiros, tangerinas ou palavras

escondidas nos labirintos dos poemas.

Urge saciar-me, que o inverno será longo

e o pomar pequeno demais para tanta alma.


Francisco José Rito




 

NO FIM DA ESTRADA



No fim da estrada

tudo é quase imóvel indiferente.

Avistam-se ao longe os rebanhos

identificam-se os lobos

sabe-se que virão saciar-se

e não se foge.



O outono invade-nos a casa.

Entra descalço, sorrateiro

e envolve-nos, decidido

como a noite envolve os montes

e o luar expõe as corujas.



Ignora-se a noite

faz-se de conta que se vive

e que o choro são cânticos.

Fita-se o mar

cheira-se a terra e balança-se

abraçando os percalços que encontramos

em cada esquina do vento.



Cordeiros mansos

corremos ao encontro dos lobos, sem temor

na ânsia aflita de sentir tudo

(mesmo que seja dor)

mesmo que a bala nos trespasse

vestida de abraços e sorrisos.



No fim da estrada já não importa

quem nos beba o sangue.


Francisco José Rito






 

O VOO DAS AVES SERÁ SEMPRE GRIS


A raiva é sede que flutua

no ventre esverdeado das almas ocas,

rogando pragas que ninguém entende.


O amor é vale de carne fértil

regado por um rio de vinho doce e alfazema

colhidos de fresco.


Entre nós - nascente e foz

nem a neve será eterna no caminho

nem o vento verá o fim à seara loira

nem as abelhas provarão o mel

das flores que não nasceram.


O voo das aves será sempre gris

porque o azul gastou-se a pintar o céu.


Francisco José Rito




 

Chegou a noite

a desenhar estrelas na negrura dos teus olhos.


A lua lavrou-te a pele em sulcos profundos

e plantou-te o desejo na carne fértil.


Foste Eros. Floriste.

E a chuva de prata prolongou-se

na eternidade das horas

regando-nos a cama – canteiro

onde nos colhemos até à última pétala.


Francisco José Rito








 

QUE FAZES TU EM MIM, A ESTA HORA?


Invades-me a boca

sem te anunciares.

Ânsias que se cruzam,

lábios que se mordem,

juras proferidas em surdina.


Ouve-se o soluço da pele,

âmago da vida, a arrastar-nos

para as catacumbas da carne,

onde os corpos se fundem

e as almas se espraiam

na imensidão da noite.


Depois a lua adormece.

Os galos choram as dores

das horas proibidas,

da guerra e da paz.


Que fazes tu em mim,

a esta hora,

senão para me dizeres dos teus desejos

como os figos de setembro

vastos, húmidos e doces?


Francisco José Rito




 NÃO SEI DAS TUAS MÃOS


Fizeste-te casa para me abrigar
paredes feitas de coragem.

Cresci nesse castelo – muralha
regaço de palavras e ternura.

Teus olhos, janelas de me ver
a brincar p´las ruas do destino
menino-homem sempre irrequieto.

A boca prenhe de ladainhas
rezava-me ao ouvido a sua fé
e eu dormitava em segredo
nas tuas mãos abertas
buscando perder-me nos sonhos proibidos.

Hoje não sei das tuas mãos.
Não sei me velas. Fechaste a janela
ou rodeias-me ainda, disfarçada
nos raios de sol,
na aragem da ramaria,
no arrulhar das rolas
ou nos versos que finjo inventar?

Hoje sou eu a casa
que me ensinaste a construir.
Sou alicerce. Escada. Janela. Telhado.

Sou eu que rezo a saudade.
A partida sem bagagem.
O silêncio da gare deserta.

Depois fecho a porta,
apago as luzes,
percorro as salas vazias,
recordo a alegria de te ter
e aguardo o reencontro prometido,
mãe.

Francisco José Rito



 

PRINCÍPIO


Entrar pela

manhã adentro

como a andorinha

que se replica

em lençóis de barro


como o amante

de um corpo inerte

que se consome a resgatá-lo

dos braços da incógnita


escondido na sombra

dos beirais de vidro

de um amor tisnado

e dúbio


tão inconstante

como o azul das mãos.


Francisco José Rito