AZAHAR


Sai amanhã o número 111 da revista poética Azahar com a qual tive a honra de colaborar pela primeira vez.

A revista poética Azahar vai no 33º ano de edição. Sediada em Espanha, publica autores de várias nacionalidades. O editorial dá-nos conta de vários recordes alcançados: o número de Abril sairá com 340 páginas e trabalhos de mais de mil poetas e 75 artistas gráficos, de 75 países.

Grato ao diretor Jose Luis Rubio Zarzuela pelo convite para publicar em tão prestigiada obra.




FÉNIX


Renasço da lava quente.

Broto do fogo

e olho para dentro do corpo

cinzelado e transparente.


As veias são caminhos

que me levarão a outros corpos.

O sangue petrificado

- a estrada, a ponte,

a unir montanhas inventadas.


Planto a minha loucura

na leiva solitária e branca.

O caderno é campo fértil,

que o arado da alma amanha e fecunda.


Alucino, transpiro e rego a palavra

com o suor virgem da minha inquietação,

e daí nasce o pranto acre e febril

que por vezes é poema

e outras vezes perdição.


Depois…

Depois ardo de novo,

para renascer mais além.

E outros versos nascerão

dos confins da alma ardente.


Francisco José Rito




 DEMÊNCIA

Ando de sonho em sonho,
de poema em poema,
à procura da mais sedutora musa.
Na planura da página vazia,
procuro a estrofe, a rima, o devaneio
que a eleve ao divino dos altares.
Ando de terra em terra,
de queixume em queixume,
à procura do mais sublime conforto.
Na seara de dias incompletos
procuro no restolho a espiga,
o milho-rei que anuncie o meu regresso.
Ando de planeta em planeta,
de loucura em loucura,
à procura da psicose perfeita.
Grito a mais profunda das súplicas
pela graça de ver-me diluído em sentidos
que me reguem: raiz, tronco, verbo...

Francisco José Rito



 

QUANDO EU NASCI


Quando eu nasci

os dias eram curtos

e as noites frias.


A minha terra cheirava a sal

e à flor do pinho verde.

Os peixes saltavam na ria.

O gado pastava nos campos.

Os melros assobiavam

nas laranjeiras floridas,

os lírios floriam ao sol pálido

e as rãs rouquejavam nos pastos humedecidos.


Quando eu nasci

o mundo não pasmou de curiosidade.

Nem o comboio que atravessa a minha aldeia descarrilou,

nem as Trindades se ouviram fora de horas.


Foi um segundo igual a tantos outros:

A mãe inventava um ror de preces novas

O pai amolava a gadanha por demais afiada,

para dissimular o desassossego.

e eu… eu desdobrava-me em estrebuchos,

queixumes e gritos, a avisar que cheguei

(como se quem pare não soubesse que pariu).


Nasci num segundo igual a tantos outros,

de um dia que permaneceu igual a tantos outros.

Só o teu coração dilatou

para me acolher, Mãe.


texto de Francisco José Rito

imagem de Jorge Bacelar






 DIZ-ME

Descartas-me,
como quem desfolha uma rosa
e atira as pétalas ao vento.
Rejeitas-me,
como quem reza o credo em cruz,
para afastar o mau olhado.
Ignoras-me
como quem ignora as chuvas de março
e marca encontro com a primavera.
Diz-me:
quantas vezes terei de me atirar da ponte;
quantas facas terei de espetar no peito,
para que me perdoes?

Francisco José Rito



 

SINA


Pinto-me no espelho

a ler poemas que trago esculpidos

nas linhas do rosto.


Sei-os de cor.

São-me o sangue dos dias;

gotas de desejo e de saudade

em versos pinceladas.

Confissões desenhadas na alma;

manuscritas no livro das vidas sonhadas.


Carrego memórias velhas.

Tão velhas como os pardais

que moram nos salgueiros da minha rua.

E no entanto,

esses chilreiam joviais e floridos

como se houvessem nascido há apenas quatro luas.


Dou por mim regressado ao meu futuro.

Sabe-me a boca às azedas da beira do caminho

que vou mastigando enquanto cresço,

sentado à sombra dos salgueiros.

Os pardais fazem-me ninhos nos ombros:

tecem tranças de cabelos ruivos

enquanto me cantam ao ouvido

a sina por demais decifrada:


serei lírio nos campos de março.

O meu querer será força

e o meu despertar, sorrisos.


Francisco José Rito




 

HÁ UMA PRECE NOS VERSOS QUE DITO


Há um lugar

escondido entre a aridez dos montes

e a fúria das águas.

É um Éden que me resgata e refresca,

que me corre nas veias

e na profundidade dos sonhos.


Há uma paz

que sobrevoa nos fumos libertos

pelas chaminés deste tempo

sem fulgor.


Há um povo

que me habita e me move.

Uma gente vestida

da cor dos salgueiros

vergados aos vendavais de dezembro.

Uma aflição camuflada

nas cores garridas das laranjas maduras,

das magnólias florescidas,

dos alpendres caiados,

que lhes alegram o destino

dos invernos sombrios.


Há um orgulho

nos pés castigados pela lama parda

e nas mãos gretadas pela nortada agreste.


Há uma prece

nos versos que dito.

Oração de dar voz aos que a não têm.

Esses que me abordam nos carreiros da memória.

Esses que me consumo a procurar

nas viagens em que me percorro.


Francisco José Rito




 

DEIXAI-ME SER TUDO O QUE HÁ EM MIM


Deixai-me ser mala aberta na chegada;

ser folha que voa e rodopia

e cai aos pés da árvore que a pariu.

Ser criança e correr como os dias de março;

como a espuma branca que se solta das vagas

e galopa pelo ventre das margens salgadas.


Deixai-me rolar nu sobre o verde das ilhas;

besuntar-me todo no azeite da terra

cair nos charcos, atolar-me nas talocas

saltar regueiras e fugir, desvairado,

como as velas fogem ao sopro do vento

e os homens fogem da má sorte.


Deixai-me inebriar-me de tardes outonais;

encarnar a alma desta terra

e ser-lhe os filhos todos que partiram.

Voar até ela e chorar-lhe no colo,

como choram os corações que vão para a guerra

ou os que enterram a mãe morta.


Deixai-me ser tudo o que há em mim;

ser pranto, ser canto, partida e regresso.

Perder-me e encontrar-me...

E depois, vestido de palavras,

voltar ao principio de tudo

e ser o mais belo poema.


texto de Francisco José Rito

imagem de Maggie Luijer




DEPOIS DO AMOR

Fumo um cigarro e olho-te ao espelho,
contemplando-te as cores rubras e o respirar ofegante.
És a felicidade encarnada num corpo que foi meu,
que me arrebatou e que ainda lateja.
Vestígios do amor que fizemos;
do fogo que ainda há pouco nos fundia.
Pela meia janela aberta, entra o sol em raios quentes
e tu desabrochas na cor de mil flores,
no som de mil poemas,
no cheiro de mil fragrâncias que me embriagam.
Na nossa cama ainda podem ver-se as marcas do desejo,
vestígios dos teus dedos aflitos,
cravados nos lençóis,
a lembrarem regos na terra lavrada,
pujantes, profundos, suados...
Andamos a desbravar-nos um ao outro.
Não me canso de te observar as cores,
as formas e os gestos...
Depois do amor,
és como as margens de um rio,
despenteadas pelo vento.
Sublime contraste
com a calmaria dos teus olhos.
Francisco José Rito



A VIDA FAZ-SE DE BRAÇOS


A estrada que percorria

para ir aprender a desenhar ideias novas

era um desfiar de silêncios

ou de ladainhas roucas


As mães

debruçadas nos muros caiados das casas térreas

pareciam-me todas da mesma cor

do mesmo tamanho e da mesma idade


Nos recados também se assemelhavam

palavras sábias e certeiras

como os ponteiros do relógio da igreja

as marés ou as luas


Por vezes o arado rasgava a leiva

ali, mesmo à minha frente

e era como se a terra se esvaísse em frutos

parindo em chorrilhos de abundância


Noutros cantos

apregoava-se o pão roubado às vagas

preces cantadas com a mesma fé

com que se levava o barco ao mar

ou os filhos aos pés da virgem


E nesse vaivém de rituais

aprendi que a vida faz-se de braços

tanto como de abraços


Sobre os homens, aprendi

que são os pais que os fecundam

mas são as mães que os constroem


Ainda hoje me encontro

na memória daqueles olhares todos iguais

e desenho ideias novas 

nos muros caiados das casas térreas

à procura do poema perfeito.


Francisco José Rito





 

POR TI, AMOR


Deseja-me

e eu brotarei da terra agreste

para te saciar.


Sonha-me

e eu serei todos os degraus

para me alcançares.


Ama-me

e eu deixarei de ser

aquilo que não quiseres.

-

Renega-me

e eu serei sombra apagada

aos teus pés desvanecida.


Tudo serei por ti, amor

Sobre mim tu decidirás

Por tuas mãos me pintarás.


poema de Francisco José Rito

fotografia de Camilo Rego






FADO

Francisco José Rito

 


 

PEDRA SOLTA

Francisco José Rito

 

ORAÇÃO


Deixai-me sonhar

a quimera da criança triste

que pinta a tristeza com cores garridas

e do alto da sua perseverança

rasga sorrisos nas bocas cerradas.


Deixai-me sofrer

a dor das pedras da calçada

moídas pelo desassossego dos pés em corrupio

e que eu saiba sempre encontrar-me

nos desvios imprevistos da caminhada.


Deixai-me viver

a penitência dos amantes embrenhados.

Suor com suor, sangue com sangue,

num cirandar de libido e fulgor,

com gritos de dor e espasmos de alma

e de raiva e desejo e amor.


Deixai-me sentir

o que sentem os felizes.

Viver como quem escala montanhas

e morrer como quem abre janelas viradas para o mar.


Francisco José Rito




 E SE OS SONHOS SE REALIZASSEM?


E se a vida voltasse aos canais?

Barcos a largar dos cais

panos brancos enfunados

cisnes a bailar no azul

tostes a rasgar vagas

varas a saltitar nas cavernas

clamando por braços fortes

que as manuseiem.


E se a borda d´água

se pintasse de verde

parindo homens

carros e bois

cachopos de espigão ao ombro

puxando cabrestos

molhos de junco à cabeça

padiolas carregadas de moliço

cães a chapinhar na lama

gaivotas a dormitar nas proas.


E se esta ria ressuscitasse,

o que faríamos?

Se os sonhos se realizassem,

quem saberia vivê-los?


Francisco José Rito






   

HORA ABSTRATA

Francisco José Rito

QUE IMPORTA O QUE VIER DEPOIS?


Trago na alma
sentidos por viver
e no corpo
esta paixão ardente,
em carne viva.

Mas um dia…
Um dia hei-de fazer
como os que vivem!

Deixar-me
convencer pelo incerto e
afoitar-me,
como quem entra mar adentro,
sem temores.

Já falta pouco, amor,
para que eu consiga
exorcizar os meus medos.
Mergulhar na fonte que tu és
e saciar-nos todos os desejos.

Porque eu quero morrer de orgasmos
e goles de whisky e travos num cigarro,
a meias contigo,
espiados pela lua
e humedecidos pelo cio que nos funde.

Que importa o que vier depois?

Francisco José Vieira



 TU ÉS O FUTURO

Menino traquinas que sonhas e brincas
Na tua janela pintada de vida
Repara nos barcos que correm ligeiros
Parecem esculpidos no ventre da ria
E os homens valentes que os navegam
São filhos do vento que lhes sopra

Repara menino nas proas garridas
Vê como embelezam as margens vaidosas
No berço das águas dormita a gaivota
O maçarico namora o guarda-rios
E o flamingo pernalta, branco de ciúmes
Debica no limo para os não ver

Não chores menino que acordas os barcos
Deixa-os descansar das fainas renhidas
Tu hás-de crescer e perder os medos
E o corpo moldar-se às vagas rebeldes
Na tua janela pintada de vida
Onde a chama arde, tu és o futuro

Francisco José Rito




 DA MINHA JANELA AVISTO A RIA

Eu tenho uma casa
com mil janelas
e em cada uma delas
espreito universos.
Abro uma janela
a cada momento
e fecundo os meus dias
com cores diferentes.
Da minha janela
vejo infinidades.
Aguarelas,
nem sempre coloridas
que eu decalco e pinto
a meu gosto e prazer.
Da minha janela
avisto a ria.
Visão abstrata.
Em cada estação,
mil mundos espelhados
até onde o olhar alcança.
Mil vidas talhadas
com mãos de coragem;
mil gestos chorados,
que cumprem destinos.
Lá fora,
nos mundos que invento,
todos os labirintos
vêm dar ao meu jardim.
No meu jardim
há barcos e homens.
Há sonhos e sinas.
Há sorte e azar.
Há querer e lutar.
Há ir e voltar
Eu tenho uma janela
para cada desejo
e ao abri-las
solto sonhos ao vento.
Janelas que desenham
malmequeres floridos
e colorem os vazios
no olhar de quem sofre.
Janelas que mostram
Édens que eu não sei pintar;
que ditam poemas
que eu não sei escrever.
Bato as minhas asas
e rasgo os meus medos
com a coragem da criança
que rasga o ventre da mãe
e mergulha na incógnita;
da apaixonada
que ouve sonetos
dos lábios da lua,
que abre a janela
e se rende aos seus mistérios.
Da minha janela
avisto a ria.
E quando a noite cai
e a penumbra me invade,
acendo os pirilampos que me habitam
e tudo ao meu redor é luz e cor.
Eu tenho uma janela
que conta histórias:
era uma vez um menino
debruçado numa janela,
que sonhava voar sobre a ria.
Vestiu asas de gaivota
e fez-se à aventura,
mas o céu era tão alto
e as águas tão profundas!
Eu era o menino
e a ria era-me mistério...
Quis saber do que era feita
e mergulhei-a.
Quis saber do seu sabor
e provei-a.
Quis saber ao que cheirava
e abracei-a.
A minha ria
é feita de (a)braços
e faz maré com as lágrimas
dos que a lavram.
Sabe à frescura
da terra prometida.
Cheira a suor
e a pão.
poema de Francisco José Rito
fotografia da Maggie Luijer
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