NA CORDA BAMBA

Vesti a pele serena do fim do caminho
Acenei o lenço branco da resignação
Rendi-me aos anos; fiz-me calmaria
E o meu olhar de escrava submissa
Pariu as histórias por tempos guardadas
Querenas da vida (na corda bamba)
Desejos amordaçados. Sonhos adiados
Na espera da vitória prometida
No amanhar da terra, no fecundar da semente
Nas ladainhas pela chuva e pela bonança 
E um dia choveu, mas eu já não vi...
O soldado morreu. A bandeira caiu
Foi-se o trono, o castelo e o reinado
E eu fiquei (na corda bamba)
Sem saber para onde me atirar
Apenas com a roupa que o vento não levou
E os sonhos enrodilhados no regaço!
Forçada a viver; proibida de naufragar
Nas cinzas do nada que sobrou
(na corda bamba) E sem saber nadar.

versos de Francisco José Rito
fotografia de Carlos Figueiredo


"DIANA ESTOU A LUTAR POR TI (II) "



Depois de ver a reportagem no "Sexta ás 9" de hoje - 20 de Maio de 2017, sobre o caso da pequena Diana Fernandes e da luta do pai para a recuperar, persistem-me as seguintes dúvidas:

1ª - Estando o pai privado da liberdade, e a pedido deste, o tribunal promove visitas mensais, disponibilizando uma sala para o efeito. Subentende-se que o pai se deslocava da cadeia e a menina era levada da instituição onde se encontrava, para ir ver o pai ao tribunal. Na opinião de quem supervisionava estas visitas, era clara a cumplicidade entre pai e filha, mas, segundo relatório que a técnica da protecção de menores apresentou em tribunal, estas visitas não deveriam de acontecer, porque o pai não demonstrava afecto pela filha e as visitas acarretavam grandes prejuízos económicos, tanto para o estabelecimento prisional responsável pelo transporte do pai, como para a instituição que tinha de lá levar a menina uma vez por mês. 
Ora, se os orçamentos das cadeias são suportados pelo Estado e as instituições recebem 800 euros por mês para cuidarem de cada criança, o que é que a senhora técnica tinha a ver com a despesa das visitas?


2ª - A certa altura, escreve a técnica (e passo a citar) "quanto mais se aproxima a data de o pai sair em liberdade, mais urgente é o encaminhamento do processo para adop-ção"...
Então mas, não havendo risco eminente para a menor, não é obrigação do Estado e da protecção de menores promover a aproximação e o convívio entre as crianças instituciona-lizadas e os seus familiares directos, com vista a uma rápida reintegração? Se é, porque é que o facto do pai estar prestes a ser libertado preocupava a senhora técnica? Qual era a urgência? O pai constituía perigo para a menina? Onde é que isso está escrito?!


3ª - Em Abril deste ano, um Juiz Desembargador da Comarca de Aveiro disse em entrevista à RTP (alto e a bom som, sem gaguejar) que o processo de adopção da Diana decorria na Comarca de Faro. Poucos dias depois, o novo advogado do pai, Dr Aníbal Pinto, entra com um recurso extraordinário no Tribunal da Relação do Porto, pedindo que o processo seja revisto, alegando possíveis falhas. Recurso que a Relação aceitou, mas que não pode rever, porque o processo da Diana não aparece. É verdade... Pura e simplesmente desapareceu! Processo esse a que o antigo advogado do pai ainda no passado mês de Fevereiro teve acesso, mas que agora ninguém sabe onde está...
Resumindo, querem fazer-nos crer que ninguém sabe onde está o processo, assim como também ninguém sabe onde está a Diana.


Para mim, que sou um leigo, o processo foi de Estarreja para Faro porque os candidatos à adopção da Diana moram lá. E provavelmente a Diana, que desapareceu de Ílhavo, também por lá estará. O que só prova o seguinte: quando o pai biológico saiu em liberdade, dificultou-se tudo ao máximo (distância, horários e dias de visitas, etc...) para que ele se cansasse e abandonasse a filha, mas aos possíveis adop-tantes facilita-se tudo... Acontece que o pai não se cansou, nem desiste! 


Francisco José Rito
DIANA FERNANDES, a menina órfã de pai vivo...




Com a autorização do pai da Diana, partilho convosco várias fotos, de diferentes momentos vividos em família, antes de Paulo Fernandes ser chamado a contas com a justiça. 

Era assim que a pequena Diana vivia. Como podem ver nas imagens (e permitam-me ser sarcástico) uma criança muito maltratada por um pai e uma mãe (à época ainda viva) pouco briosos e cuidadosos com a higiene e bem estar da menina. Uma casa em muito mau estado, velha e suja...

O Paulo, como se pode ver, não dava nenhuma atenção à filha. Nota-se perfeitamente que não havia ali qualquer laço afectivo e que a menina tinha um aspecto infeliz, certo? 

Será que foi baseado nestas imagens que as técnicas da Protecção de Menores encheram páginas de relatórios, dificultando ao máximo a reaproximação entre pai e filha? Terão pressentido perigo de vida para a pequena Diana?

Deixo ao vosso critério. Pela parte que me toca, vejo amor, carinho, cuidado e protecção. Vejo a felicidade estampada no olhar e no rosto de ambos e palpita-me que se pudesse mostrar-vos imagens da mãe, veríamos algo parecido.

A desgraça bateu à porta desta família, mas quer-me parecer que não veio por acaso, nem veio por seus próprios pés. Alguém teve culpa do que aconteceu a esta menina e não me parece que tenham sido só os pais...

Diana Fernandes tem hoje 9 anos, 7 deles vividos numa qualquer instituição, longe de um pai que a ama e que a quer. Arrancada do colo da mãe com apenas 2 anos de idade. Arrancada do colo do pai com 7 anos, para nunca mais o ver. De um pai que nesse tempo já tinha feito contas com a justiça, com o passado, quiçá até com Deus, mas que, para as técnicas da Protecção de Menores e para a justiça portuguesa, parece que ainda não pagou tudo. Esquecem-se é que quem mais paga e sofre com isto, nem sequer é o pai...

ps: peço-vos o favor de partilharem esta publicação o mais possível. Pode ser que um dia a Diana Fernandes saiba que o pai não a abandonou. Que, qualquer que seja a história que lhe contaram, foi mais uma mentira, no meio de tantas usadas nestes processos macabros.


Francisco José Rito






























"DIANA ESTOU A LUTAR POR TI"



A menina da foto é a Diana Fernandes, uma criança de 9 anos, institucionalizada há 7 e a quem o pai, Paulo Fernandes, não vê desde 2015.
O caso remonta a 2010. Paulo é preso, no cumprimento de uma sentença em que havia de cumprir 3 anos de prisão efectiva (o motivo da sentença é público. Não o menciono aqui porque, nada tendo a ver com violência doméstica ou maus tratos a menores, não considero que acrescente algo ao que vos quero contar. Além disso, o cidadão em causa já foi condenado e pagou pelo erro cometido).


A mãe da Diana, com o marido preso, uma criança de tenra idade nos braços e descompensada psicologicamente, tenta o suicídio. A filha é-lhe retirada, a mãe é internada e "tratada", recebe alta, volta a casa, mas jamais a filha lhe será entregue. Revoltada, ameaça matar-se se não lhe devolverem a menina, acabando por o fazer, em desespero de causa. O pai sai da cadeia em 2013 e inicia uma longa batalha pela recuperação de Diana, mas o que encontra pela frente, em vez de um Estado Social que promova a reinserção, integração e promoção dos laços familiares e afectivos, é um Estado Carrasco, que castiga, afasta, separa, ameaça, dificulta e chantageia psicologicamente os menos bafejados pela sorte.

Paulo recupera a liberdade e encontra um país revirado do avesso, mergulhado numa crise profunda, onde muita gente de bem e estruturada luta com graves problemas económicos, alguns que haviam de perder os frutos de uma vida inteira de trabalho. Ainda assim, homem determinado e lutador, faz-se à vida, recupera a estabilidade emocional, afectiva e económica, consegue casa e trabalho, acabando por criar o seu próprio emprego, tudo requisitos exigidos pelo Estado Carrasco que - ainda assim - insiste em manter a pequena Diana longe dos seus braços. Como se não bastasse, o instituição que acolhe Diana (a 200 quilómetros de si) não lhe permite visitas ao fim de semana, roubando-lhe a oportunidade de a visitar tanto como desejaria.

Dois anos mais tarde, em 2015, essa distância e pouca assiduidade de contacto seriam usadas como motivo principal para que o processo da pequena Diana fosse encaminhado para adopção, tendo-lhe - desde então - sido proibido qualquer visita ou tentativa de contacto. A justiça decidiu, baseada nos relatórios das senhoras técnicas, que mais não são que o fruto dos tempos modernos, do facilitismo, do efémero e supérfluo; que decidem consoante a sua forma de estar e ver o mundo, não percebendo - porque a idade da maioria não lho permite - que mais vale uma côdea de pão vinda das mãos de quem nos ama, que o melhor manjar servido por estranhos...

A sentença transita em julgado, sem direito a recurso. Paulo não se conforma e inicia uma jornada de protesto, com greve de fome e sede, até que o Tribunal da Relação aceite rever o caso da Diana, protesto que cessou, depois de lhe ter sido aceite um recurso extraordinário, com promessa de acesso ao processo, até aqui secreto. 
Mas desenganem-se os que pensam que o caso ficou resolvido... No dia prometido, Paulo vai à Relação, mas é-lhe dito que (afinal) o processo da Diana está em parte incerta. Isto, apesar de um Juiz Desembargador da Comarca de Aveiro ter dito uns dias antes, em entrevista, que o processo estava na Comarca de Faro.


Enquanto os Oficiais de Justiça chutam a bola de um lado para o outro, Paulo espera, tentando dominar o impulso de voltar à luta.
Enquanto isso, a pequena Diana vai contando os dias, os meses, os anos que passam sem que ela possa correr livremente para o colo de quem lhe deu a vida. 
Enquanto isso, alguém, algures, aguarda uma adopção; aguarda por uma filha que não pôde gerar, mas que anseia. É uma direito seu e uma causa nobre, mas a Diana tem pai. Sim, a Diana tem pai! Um pai que a ama e a quer. Um pai que tem o direito de a ver crescer e ser feliz...


Diana, se for cumprida a vontade do Estado Carrasco, que insiste em te manter afastada do teu sangue, espero que um dia leias este texto. É importante que saibas o teu pai está vivo e a lutar por ti. Que o teu pai nunca deixou de lutar por ti!

ps: O titulo deste texto ("Diana estou a lutar por ti") é o nome da página do facebook que o Paulo Fernandes utiliza para divulgar a sua revolta e o seu protesto. Visitem e partilhem, através deste link:

Francisco José Rito

SOBRE ESTE "LÁ VAI A ROSA"


Esta pode considerar-se uma obra de ficção, salpicada por pormenores de várias histórias reais, algumas delas que me são bem próximas e queridas.
A intenção original era contar-vos a verdade de uma “rosa”, que em tudo a esta Rosa se assemelha, menos no nome, mas depois concluí que não conseguiria fazê-lo, sem expor detalhes do foro privado de alguns e algumas que ainda caminham entre nós e de outros que já por aqui não andam, mas que nem por isso são menos merecedores da minha atenção e respeito.
Decidi então fazer o que mais me apraz, vestir a pele de contador de histórias e não de historiador porque, como contador histórias, posso pintá-las das cores que quiser, ao invés do historiador, que deve cingir-se a factos reais…
Mas, antes disso, este “Lá vai a Rosa” foi outras coisas, apesar de, na sua essência, querer sempre contar-vos a mesma estória. Começou por ser duas pequenas quadras, inseridas num texto, chamado “A Rosa Murtoseira” (in Um mar de Sentidos – Janeiro de 2011). Depois, essas duas quadras emanciparam-se e procriaram, parindo mais quatro, que foram – primeiro, letra para uma cantiga original e depois para um fado de Alfredo Mendes – ambas cantadas e gravadas por duas pessoas que me merecem grande estima. Com isso, estava o caminho aberto para este “Lá vai a Rosa”. Porque sim. Porque contar a estória de uma “rosa”, em seis quadras, sabia-me a pouco. Porque o tema me é querido e me estava aqui, à flor da pele, na ponta da língua e dos dedos, esperando por uma desculpa para dar cambalhotas e piruetas no papel, no ar, no universo...
E deu algumas! As lembranças de tempos idos, vividos ou sonhados, mais as histórias tantas vezes escutadas, correram como correm as águas irrequietas da minha ria e foram regando páginas e páginas de uma escrita agridoce – porque o tema me provoca lágrimas e sorrisos – num linguajar que é meu, porque o herdei no sangue, fizeram deste enredo o mais aprazível de criar.
Se consegui? Não sei… Vocês o dirão… Eu tentei, apenas. Mas, com este simples acto de tentar, dei por mim tão feliz como se de facto o conseguisse.


    Francisco José Rito





MULHERES DA AREIA

É na borda d´água que a canastra espera
P´lo pão que há-de vir encher de alegria
Os rostos tisnados pela lida severa
E os olhos pintados pela nostalgia

Correrão ligeiro p´la estrada da vida
Dos braços morenos, da cor do luar
Sairão embalos de amor e guarida
Aos filhos que a sorte levará pró mar

São mulheres e mães. Gente que geme
Às mãos de uma sina herdada ao nascer
Um nó que as enlaça e amarra ao leme
Do barco (da terra) que as viu nascer

E ao longe ecoa o cantar de sereia
Das bocas coradas e formosas
Na voz rouca das mulheres da areia
Os pregões florescem como rosas


Francisco José Rito, in "Versos de Cantar"
Imagem: óleo sobre tela de Fernando da Silva


O MEU AMOR É SAUDADE

O meu amor é silêncio.
Quadro de lousa sem rabiscos,
beiral sem andorinhas…
É sonho sem sono. É dormir em guarda;
alma vestida de asas de gaivota,
que anseia voar para lá da tempestade.

O meu amor é espera.
Flor de sal que emerge dos meus olhos;
o grito ansioso de mergulhar no teu corpo,
como quem nada nas ribeiras de inverno,
a transbordar pujança e inquietação.

O meu mor é esperança.
É raio de sol que se acende na fenda de xisto,
sorvendo do ventre da montanha
os cheiros da terra ruiva e prenhe.
É desejo. Este querer amar-te,
como se mordem as cerejas de Maio!

O meu amor é saudade.
Saudade das pedrinhas do caminho
que eu – incansavelmente – percorria, para te ver.
– Lembras-te, amor, das pedrinhas
que atirava contra o vidro da tua janela,
esperando – ofegante – que tu corresses a cortina
e me fizesses o sinal combinado?

O meu amor é saudade…
Esta infindável saudade,
que me leva pela imensidão das noites
como quem percorre a Via Láctea (Via-Sacra),
à tua procura, no meio das outras estrelas.

Francisco José Rito


LASCÍVIA


Era quase dia
e tu ainda à procura
(fera voraz e destemida,
que circunda o banquete,
matreiramente)

e eu, caçador nato,
que só vai aonde quer,
deixei-me levar…

Na penumbra quase desfeita
só tu emergias,
no trilho por demais calcorreado,
em escapadelas furtivas.

Vi-me pequenino,
submisso, presa fácil,
arrastado por escombros de luxúria,
na direção do teu olhar.

Numa nudez escaldante,
sem pudor,
rebolámos na bruma

e bebi no teu corpo 
(cachos de uvas ruivas)
o sumo da carne, que me amansou o cio.

Balbuciaste-me um rol de palavras roucas,
aflitas, que não tentei decifrar.

Não quis saber o teu nome.
Não foi preciso…
Tudo em ti parecia efémero,
e a mim convinha que assim fosse.



Francisco José Rito
arte de Monica Piloni




TRAVESSIA

Alma amortecida. Ego naufragado
nas profundezas de uma garrafa meio vazia.
Salvador de anjos, em pele de demónio.
O último suspiro do sonho amordaçado.
O latir do homem abandonado pelo cão.

O mundo colapsou no adro da igreja.
Praguejam os fiéis, oram os ateus.
Virgens prostituídas. Putas beatificadas.
Beatas ungidas com gotas de cio.
Maldições proferidas em nome de um deus menor,
sentado ao colo do recém-nascido.

Mas tu, senda azul na vã quimera,
boca em botão de rosa – beijada,
alma em botões de espinhos – rasgada,
vestirás as cores da nova primavera
árvore triunfal de altivo porte –
que não lamenta a vida ou teme a morte,
se antes morrer de pé, que viver prostrada!

poema de Francisco José Rito
fotografia de Adriano Coutinho


TRONO

No melancólico azul dos meus olhos d’água
Ainda bailam velas e homens. Outras vidas
Enfeitiçadas por auroras boreais e floridas
Marés de corpos seminus, da cor da mágoa

No dourado das minhas memórias há Arrais
Que escarnicam ordens e rogam pragas
Há tostes que dão de bordo e rasgam vagas
Há oásis verdes de moliço a enfeitar os cais

Marinhões, Matolas, Ílhavos, Vareiros
Ao leme, trono da glória ou da amargura
Donos da lagoa, à ré, por natureza

Que os reis da ria sois vós, moliceiros...
Vós, homens de ferro e de ventura!
Os barcos são apenas a vossa fortaleza


Francisco José Rito


FINGIDOR


Vivo na inquietude de uma alma poética,
onde os dias são sonhos.

Levito, algures, num campo de papoulas,
onde os silêncios murmuram e
as palavras desabrocham em pétalas de esperança.

Encontro-nos na solidão das noites caladas,
onde te oiço sussurrar-me ao ouvido
o amor que não fazemos.

Acordo alheio à apatia da cama vazia.
Ao carpir das mágoas contidas,
onde o tempo se dissolve, sem abraços.

Sorrio ao regresso da partida,
para não sentir saudade, e
conto as horas da espera ansiosa,
como quem recita os versos de um poema.

E volto ao princípio de tudo.
E a penumbra se alumia.
E escrevo.
E relato paixões e prazeres,
no mesmo recanto onde te espero.
E minto, quando digo que vivo.


Francisco José Rito, in "Entre o olhar e a alma"


NATAL


Quantas chaminés destruídas?
Quantas lareiras apagadas?
Quantas dispensas vazias? 
Quantas vidas perdidas?
Quantos homens sem paz e sem fé? 
Quantos meninos órfãos de futuro?
Quantos sonhos castrados?

Como pode a humanidade evoluir, 
se não cessa a destruição?
Como queremos homens de bem, 
se de tão tenra idade os tratamos tão mal? 
Como esperamos mel, 
se os alimentamos com fel?

Francisco José Rito


NÃO TE DEIXAS LER

Pões-me a cabeça à roda.
Pintas-te de frases ilegíveis, camuflado,
a disfarçar o desejo que te queima.

Sussurras-me ao ouvido versos sensuais,
dança almiscarada de palavras quentes
– noz moscada, anis estrelado, açafrão…

Uma estrofe a roçar-me o joelho,
uma quadra pousada no meu ombro trémulo,
uma rima feita à pressa,
qual beijo roubado ao soneto dos teus lábios.

És uma história de amor à moda antiga.
Um quê de erotismo, um quê de pudor...
... chama que se acende a cada poema,
que me abrasa e provoca todos os sentidos.

Dispo-te a capa e a contra-capa,
onde te escondes dos meus dedos ansiosos.
Desfolho-te, página a página,
sinto-te, toco-te, cheiro-te,
mas não te entendo


Não te deixas ler!


Francisco José Rito


REFLEXO

A janela dos olhos mostra-me inquietudes,
mas eu pinto peixes ruivos nas cortinas.
Fecho a janela. Fecho-me de mim!
Resgato outros brilhos. Invento outras cores. 
Visto o meu reflexo. Ressignifico-me!
E aqui, entre o naufragar e o voar,
o rasgar sorrisos e o amordaçar prantos, 
construo caminhos novos...
Troco água salgada por palavras doces
e sonhos frescos por lábios salgados.


Francisco José Rito, para uma fotografia de Adriano Coutinho