Domingo em família


Ontem matou-se o porco lá em casa e reza a tradição que no dia seguinte se façam os rojões. Além da ceia de Natal, só esta ocasião ainda vai mantendo a capacidade de nos juntar todos à mesa. Acredito que por pouco tempo e digo-o com uma grande mágoa, mas as circunstâncias da vida têm esse poder. Os meus pais daqui a pouco atingem a barreira dos oitenta. A saúde e a paciência vão faltando e tenho a certeza absoluta que depois deles, nenhum de nós terá vocação ou disponibilidade para os substituir na incansável tarefa de manter o rebanho unido. Os anos passam por todos sem compaixão e encarregam-se de nos desmotivar.

São também os caminhos que cada qual vai seguindo, que nos vão afastando daquilo que deveria ser prioritário, porque é realmente importante, mas as responsabilidades de cada um não se compadecem de sentimentos. Digo-o com a experiência de quem andou 20 anos ausente. Sei o que vai na alma dos que estão longe. As saudades são constantes, principalmente nestas ocasiões especiais, em que sabemos estarem todos presentes, menos nós. Um vazio muito difícil de suportar, para ambas as partes, mas que com o tempo passa a fazer parte da rotina.
Nós, humanos, acostumamos-nos a tudo, mesmo ao que definitivamente não deveríamos.

Na nossa casa, há muito que somos nós, os filhos, que nos vamos esforçando por ir mantendo estreitos os laços, insistindo, fazendo questão de que, pelo menos nestes dias, vão continuando a aparecer o maior número possível. Fazê-mo-lo por eles. Por sabermos o prazer que lhes dá ver-nos todos juntos. Mas sem ilusões...nenhum de nós duvida que a partir do dia em que nos faltar esse motivo, nada será igual.

Hoje, para não variar, tocou-me a mim a confecção dos rojões, a fogo de lenha. A minha mãe ainda os cortou e temperou, mas a saúde já não lhe permite estar três horas de pé, em frente à lareira. Desde a sua incapacidade, a malta usa a desculpa mais ou menos convincente (modéstia à parte) de que nenhum deles cozinha como eu e fazem o favor de me empurrar para a cozinha.
Não sabem o que perdem, porque eu deliciei-me de a ter ali, sentada a um canto, seguindo um a um todos os meus passos. A certo ponto tive de me esforçar por controlar uma lágrima de emoção, por saber exactamente o que lhe ocupava os pensamentos. Sinto-me abençoado com os pais que Deus me deu, mas sei também que ambos têm um enorme orgulho no filho que geraram.

Por falar em orgulho, a minha filha Clara deu-me hoje uma notícia que me encheu o ego. Entra em Setembro para uma escola de hotelaria, em Paris. Reconheço que isto vindo de mim pode parecer suspeito, dada a minha notória paixão pela cozinha, mas não é apenas por isso. É certo que considero a culinária uma arte, quando exercida com paixão, mas a minha preocupação em relação ao seu futuro e ao da irmã vai muito além desse motivo. Este não é um curso que se escolha de animo leve. Tem de se gostar muito e a mim agrada-me o facto de ela gostar.
Muitos pais sonham ter filhos doutores, por considerarem menos nobres as outras profissões. Eu anseio apenas que as minhas tenham a oportunidade de escolher uma profissão que as realize.

Francisco Vieira

21 comentários:

  1. Amigo,

    Sabes como se costuma dizer "filho de peixe sabe nadar", como te entendo quando te referes a tua mae, senti o mesmo quando a minha esteve aqui, ela que sempre se dedicava a confecao das refeicoes da familia, desta vez limitou-se a estar sentada ao meu lado :(
    Acabei de fazer uma viagem no tempo, apos ler este texto... relembrei-me dos tempos em que se fazia a matanca do porco la na casa... saudades... saudades do tempo que jamais voltara :(
    Fico feliz por saber que a Clara vai seguir os passos do pai, que escolha a profissao que a faca sentir-se realizada e feliz :)
    A Stephanie podera nao dedicar-se a restauracao, mas acredito que tambem ira encher de orgulho o pai babado :)

    beijocas

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  2. Aninha, sempre presente! Não tens que fazer?! eh eh eh
    Falando a serio, os filhos não são nossos. Assim como lhe demos a vida, temos obrigação de lhes dar asas para voarem. A minha unica preocupação é que elas não tomem decisões que as obriguem a viver contrariadas no futuro.

    Falando em filhas, como estão as tuas mafarricas? :-)

    Uma beijoca

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  3. Grande homem de coração cheio.
    Nós ainda criamos e matamos o porco mas já não fazemos essas habilidades.Torresmos, rojões, chouriços, paios etc.
    É uma maneira de enchermos a arca e saber o que cá temos. Por outro lado era trabalho a mais num fim de semana.
    Juntar a família já acabou no tempo o meu pai.
    A nossa preocupação hoje está centrada nos filhos. São estes que nos enchem de grandes alegrias.
    As reuniões de família passaram para o dia de Natal ou outra festa importante, baptizado, casamento ou ainda outros acontecimentos.
    Boa sorte para a tua menina e que tenhas muito carinho com os teus pais. Isso prolonga-lhes a vida e enche-nos de boas razões

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  4. Amigo Luís, é exactamente a isso que me refiro, porque prevejo o tal afastamento de que falas no teu testemunho. Com alguma magoa, mas sei que connosco não será diferente. Todos sabemos...

    Um abraço

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  5. Nao te esquecas que ja voltei a rotina :P
    As mafarricas tao cada vez mais reguilas... acho que tenho que lhes aumentar as gotas ehehe

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  6. eh eh eh eh eh Ana, sempre a mesma, tu :-)

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  7. Que texto lindo Francisco!
    Nada como a família da gente não é mesmo!
    Bjs.

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  8. ainda bem que continuo a mesma :)
    Imagina a tua amiga Ana deixar de ser loira e ter 1.70 mt., sera que me irias reconhecer na rua???? ahahahah

    beijocas ate amanha

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  9. Que encanto meu amigo querido... ter a mãe junto de ti na cozinha, reunir os que fazem parte de ti e os manter ali contigo por algum tempo... isso é como que milagre... Imagino tua felicidade e posso sentir parte de sua alegria.
    E como mãe, acredito que nada é mais valioso que os filhos escolherem com prazer suas profissões, independente de se tornarem professoras ou doutoras. Estarem felizes é o que importa meu amigo e mais um motivo para admirá-lo!

    Deixo uma beijoca e muito obrigada por tua presença...

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  10. Boa noite Fátima!
    Não existe nada realmente que se possa comparar, embora a maioria tenda a desvalorizar esse pormenor...

    Um beijo e boa semana

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  11. Ana, assusta-me só a ideia de te ver mudada :-)

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  12. Patrícia, boa noite!

    Nada a obrigadar, amiga. Gostei daquela sua obra e não podia deixar de a comentar, por muitos motivos.

    Beijos

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  13. Bom dia Francisco

    Os meus velhos fizeram 50 anos de casado há 15 dias. Festinha para os filhos, com um leve toque de tristeza por sabermos que dificilmente chegarão aos 75...

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  14. Olá Francisco!

    Tudo que aqui tão bem relata é para mim familiar, começando pela matança do porco e o convívio a ela associado; mais os "velhotes" que vão ficando mais velhos; mais o afastamento da família quando eles deixam de estar presentes.Sem eles deixa de existir "ponto de encontro", a motivação ou pretexto para a reunião dos familiares. A vida muda, e obriga-nos a mudar,mas nem tudo muda para melhor...

    Grande abraço.
    Vitor

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  15. Caro Francisco;

    Que bela moldura para tão bonito quadro familiar.
    Esforce-se para que nunca se percam esses laços de união da família; ela é o sustentáculo maior para que valha a pena viver e ser feliz.

    Um abraço
    Carlos Pereira

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  16. Friend, primeiro gostei do novo look do blog.
    Também tenho pena que as reuniões de família se vão escasseando. No meu caso, os meus pais são mais novos e os netos ainda não pensam por eles mesmos e vão agarrados aos pais, mais para frente logo se verá mas a tendência é sempre o "abandono" das tradições.
    Deixa lá, começas essas tradições com as tuas meninas e os filhos delas ;)

    Abraço

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  17. Eusebio, entao parabens aos cotas :-)

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  18. Vitor, muito obrigado. Abraco

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  19. Boa noite Carlos Pereira!

    Obrigadoi pela visita

    Abracos

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  20. Catsone, boa noite my friend

    Pois quem dera que a tradicao se mantenha, mas nao vejo jeitos :-)

    Abracos

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  21. Não há nada como a Família, tens toda a razão.
    Mas quando os pais desaparecem ou envelhecem demasiado, primeiro vem a míngua de reuniões familiares e tantas vezes as quezílias.
    O meu Pai partiu há muito, a minha Mãe vai a caminho dos 88, e bem, por ora...
    Cada vez a procuro mais, pois sinto que cada vez está mais perto a separação natural, triste mas impiedosa.

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Obrigado pela visita. Este espaço é seu. Use e abuse, mas com respeito, principalmente por quem nos lê. Francisco