Ossos à Lareira

Pronto, lá venho eu falar-vos de comida, mas prometo-vos que nos próximos tempos não vos trago mais receitas. Palavra de cozinheiro!
E uma vez que falamos em comida, que tal organizarmos um jantar para amigos, assim numa destas noites de Inverno? 
Lareira acesa, uma boa música, aproveitem para por a conversa em dia e reatar relações com alguns de quem tenham andado mais afastados.
Não se esqueçam que temos a obrigação de fazer da vida um jardim e que as amizades são flores, que devemos cuidar e acarinhar. Sem elas, ficamos com um terreno baldio em mãos. Sós e tristes...





Organizem um jantar só para adultos. Primeiro, porque a maioria dos garotos não gosta da comida que vos recomendo hoje, e segundo, porque também é preciso de vez em quando quebrar a rotina e tirar uma folga das responsabilidades parentais. 
Deixem os meninos na casa dos avós, ou contratem uma baby-sitter por meia dúzia de horas. Encomendem-lhes uma pizza, que eles não se importam nada, antes pelo contrário.

Primeiro passo:
À hora marcada, abram logo 6 garrafas de vinho tinto, para que respirem. Já sei que estão a achar-me louco, mas eu não acho nada. Ia-vos dizer a seguir para juntarem 6 casais. Ora 6 garrafas para 12 adultos, são dois copos a cada um. 
Mesmo considerando que algumas das "Marias" bebam apenas 1, haverá de certeza "Maneis" que não farão sacrifício nenhum para "enfrascarem" o deles e o do alheio. 
Digam lá se é muito vinho? Ainda por cima, a comida é forte!

Minhas senhoras, não se preocupem muito com a etiqueta. Lembrem-se que estão "de folga". Uma mesa simples, um ambiente descontraído, não fica mal a ninguém. 
Não duvidem que são as pessoas que fazem o ambiente e não as toalhas de linho, as louças finas e os copos de cristal. 
Vão ver que esta comida vai-vos dar vontade de levar as mãos ao prato. e, se tal acontecer, façam-no, sem preconceitos ou remorsos. Estão entre amigos, num espaço privado. Descontraiam, que a vida são dois dias...

Vamos então aos ossos, que se faz tarde:

Ingredientes:

12 ossos do espinhaço
2 chouriços de vinho tinto (ou a gosto)
2 couves lombardas ou pencas
8 batatas grandes
6 cenouras médias
1 kg de feijão verde
1 kg de feijão vermelho (novo)
500 grs de arroz
6 dentes de alho
2 pés de alho francês
1 cebola grande
Azeite de oliva
sal
2 folhas de louro
cominhos em pó
massa de pimentão
pimenta fresca

Tempo de preparação: 2 horas

Modo de preparação:

Na véspera, limpe os ossos de gorduras em excesso e cubra-os generosamente com sal grosso. Para quem não sabe, os ossos do espinhaço são a coluna vertebral do porco, que é partida em pedaços de 10 cms, mais ou menos, e devem ter carne agarrada. Por isso, quem desossa o lombo não pode ser semítico, senão ficamos com uns ossitos rapados, que nem os cães os querem. 
Na casa dos meus pais, a quando da matança, deixam-se com bastante carne, exactamente para esta receita. Se forem comprados no talho, convém ser-se amigo do carniceiro. 
Com boa vontade, consegue-se tudo.




Ponha uma panela de água ao lume e deixe ferver. Junte um fio generoso de azeite, os alhos socados, o louro, os cominhos, a massa de pimentão, a cebola partida em 4 gomos, o feijão, os chouriços (espetados com um garfo) e os ossos, depois de bem lavados, para lhe retirar o sal. 
Deixe ferver cerca de 1 hora e meia e retire os ossos. Parta as batatas ao meio e coloque-as primeiro na panela, porque demoram mais tempo a cozinhar do que os legumes. 
Nesta altura convém ver a medida da água, que deve precisar de ser aumentada.

Nunca é demais referir que estes tempos que eu aconselho nas receitas, são sempre relativos. Dependem da potência do fogão de cada um, por exemplo. Como tudo na vida, o bom senso deve imperar, sem esquecermos que se da primeira vez não sair tão bem, para a próxima sairá melhor. 
No entanto, se seguirem as minhas indicações, não ficarão mal vistos, de certeza absoluta.

Enquanto isso, lave bem a couve e corte  as folhas em 3. Apare os extremos do feijão verde e do alho francês e corte em 3 pedaços. Descasque as cenouras e corte ao meio, sobre o comprido. 
Junte tudo na panela e deixe ferver. Volte a colocar os ossos e rectifique o sal e a pimenta. Quinze minutos são suficientes para cozer os legumes, que convém ficarem "al dente". 
Sirva em travessas de barro, que dão um aspecto rústico à mesa. Disponha os ossos e os chouriços partidos em 12 pedaços de um lado, os legumes e o feijão vermelho, do outro. 
O arroz pode ir ao lado.




Dica: 
Eu recomendo o arroz feito num tacho com o caldo do cozido, mas para ficar ainda melhor, poderia ir ao forno. Num alguidar de barro, disponha uma cama de cebola em rodelas, uma folha de louro, um ranco de hortelã e um fio de azeite. Coloque o arroz e cubra com o caldo já temperado. Quando secar, está pronto. No entanto, deixo ao critério de cada um, por uma questão de tempo e economia.

Não se esqueçam, vinho do bom! De qualquer região do país, mas tinto e bom. 
Não tem de ser de marca. Temos vinhos de quinta muito bons e a um preço bastante acessível.

Para sobremesa, como o prato é forte e rico em calorias, recomendo um ananás laminado, para ajudar na digestão. Ao natural ou numa infusão de Vinho do Porto branco.

Bom apetite!

20 comentários:

  1. Parece ótimo, mas vou esperar o inverno aqui para experimentar viu!
    Vc hoje está inspirado, transmitindo alegria e isso é muito bom meu amigo.
    bjs.

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  2. Você pensa que nós pensamos que abrir 6 garrafas de vinho "é de louco"

    Eu o que acho, com esse tacho

    é que é pouco!

    Um abraço

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  3. Fatima, temos dias assim :-)

    Um optimo dia para si e um beijo

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  4. Amigo Vieira

    E eu nao sei? Mas sabe o amigo que com esta "perseguicao" a que cada cada vez assistimos mais contra alguns habitos, todo o cuidado e pouco eh eh eh

    Tenha um bom dia!
    Abracos

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  5. Com uma comida destas porque não o palhinhas com sinco litros, sempre daria mais um pouco, e entre tanta gente também não vai sobrar mesmo nada no fim até dá para lamber os dedos....

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  6. Bom dia Joaquim Angelo!
    Boa ideia amigo. Um empalhado do bom nao fica nada mal e assim passaria a ser so uma unidade, nao é? :-)

    Obrigado pela visita. Abracos

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  7. Francisco
    Para quê a lareira??? Com este prato regado com vinho tinto ( do bom, como dizes...) não há frio que nos chegue...carago!!
    Beijocas
    Graça

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  8. Oh Graça, a lareira da um aspecto mais romantico a coisa, carago!

    Mas podem ligar o aquecedor, que na pratica faz o mesmo efeito :-)

    O Tintol aquece sim senhora, mas é preciso bebe-lo. Com responsabilidade, mas sem medos nem pudores. Até ajuda a desanubiar destes maus tempos que correm. Mas faz-se tanta pressao hoje em dia contra alguns dos prazeres da vida, que a muitos o sentimento de culpa ja retarai.

    Bom dia amiga. Beijos

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  9. Bom Dia Francisco

    Ainda meia a dormir, venho ao tasco do vizinho e so se fala em comida e mais comida, e agora tambem em bebida :-)
    Oh pa e quem tiver miudos e nao tiver lareira como faz????
    Em relacao a receita gostei... mas nao vou poder comer pk tou de castigo e o vinho ate dispenso, podes contar com os meus dois copos :-)

    Beijocas

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  10. Oh Ana, chegou-te ai o cheiro? eh eh eh

    Eu como sou um rapaz prevenido e ja sabia que vinhas tu com a desculpa das crias, arranjei logo uma solucao para isso, nao viste? :-)

    Bom dia para ti e uma beijoca

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  11. oh pa nao havia nada mais saudavel para a canalha? :-)

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  12. Ana, deixa-lhes a panela da sopa em cima da mesa que eles desenrascam-se :-)

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  13. ja que fales em sopa... para quando uma receita de sopa de pedra??? pois sei que adoras sopa lol

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  14. Deus me livre...so se fosse por uma questao de subsistencia :-)

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  15. quem te mandou ser guloso e comeres muita sopa e ovos em puto....agora tas a pagar a factura lol

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  16. Ana, primeiro tinha que se acabar o pao com manteiga, ou as laranjas na horta do vizinho, e so depois tocaria na sopa!

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  17. Olá Francisco, bom dia!


    Que saudade, que gratas recordações me trazem o teu post de hoje! Ossos de porco com sal…matança!

    Os meus pais nunca foram lavradores, cultivavam o quintalzito com culturas mais essenciais, como hortaliças, mas sempre se criou e matou porco em casa.

    Por momentos, retrocedi primeiro ao tempo de criança, depois ao de jovem já feito, de acordo com o afluir das recordações. Que bom revê-los de novo integrados na azafama da matança:

    - Eram chegados o matador e os homens que haveriam de ajudar (5H da madrugada). O meu pai, como era costume, logo lhes serviu pão de trigo ainda quente, figos e água ardente que comiam enquanto faziam os preparativos para “tratarem da saúde” ao bicho, e voltaria a ser servido ao virar do porco e depois no fim do trabalho enquanto esperavam pelo “pequeno almoço de panela”. A minha mãe na azafama dos preparativos para a dita matança e dos temperos.

    Que bom reviver estes momentos e o conforto e carinho com que sempre nos rodearam. Que bom voltar a sentir aquele cheirinho ás mouras acabadinhas de cozer e recordar o sarrabulho e o sabor daqueles deliciosos rojões com que nos lambuzávamos com tanta satisfação.

    Que alegria a de termos toda a restante família (avós, tios e primos) em volta daquela mesa que fazia jus ao belo cevado que durante um ano foi tratado para o efeito e governo da casa.

    Que bom sentir esta seiva intemporal advinda de raízes tão fortes que se renovará a cada geração!

    È isso Francisco, quando falo naquilo porque tu também lutas, a preservação desse espólio, vivências e testemunhos, a nossa identidade, falo de amor, de recordações que nos são caras, falo do alimento à nossa existência.

    Um bem-haja por este momento e por tudo quanto nos proporcionas com a tua partilha!


    Agora a receita:
    Penso que terei dito tudo. Além disto, a tua receita está maravilhosa e certamente deliciosa!
    Quanto ao jantar, não poderias ter escolhido melhor menu para um reencontro de amigos num ambiente informal. Saboroso, apelativo e reconfortante!

    Parabéns, um abraço

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  18. Bom dia Manel!

    Essas recordacoes que aqui referes sao parte da nossa identidade e serao eternas, por mais que as geracoes actuais teimem em faze-las cair em desuso. Bem, eternas, enquanto vivermos, pelo menos. Gostaria que houvesse continuidade, mas nos tempos que correm os valores sao outros.

    Um abraco para ti

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  19. Mas com esta caldeirada pareceu-me o nosso tradicional cozido à portuguesa.
    Esses ossos cozidos são bons para comer até com um naco de broa de milho. Existe um restaurante lá para o interior que serve este prato uma vez por semana e parece que está sempre cheio(ouvi contar)

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  20. Direitinho, a diferenca entre os ossos e o cozido esta apenas na variedade das carnes e nos temperos, mas a base é a mesma.

    Bom fim de semana para si e um abraco

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Obrigado pela visita. Este espaço é seu. Use e abuse, mas com respeito, principalmente por quem nos lê. Francisco