Pão-de-Ló de Ovar - Receita e breve história

Não sou grande doceiro, confesso. Sou muito mais guloso do que fazedor de doces. Sei fazer meia dúzia de coisas que aprendi há anos, por serem disciplina obrigatória no curso, mas muito mal feitos. A minha paixão são os tachos, uma boa tábua de corte, uma abundante mesa de frescos, um cabaz de peixe e um bom grelhador. Uso muitos legumes, abuso nas ervas, cozinho muito com álcool. Adoro ver uma cataplana em chamas com um copo de cocnac.

O seu a seu dono. Prefiro deixar os doces para os doceiros (as), que os temos muitos e muito bons. Mas como um dia destes um amigo me falou aqui no Pão-de-Ló, e como de todos esses doces que faço "mal feitos", quer-me parecer que é o que me sai melhor, vamos lá fazer o doce.

Não sou Vareiro. Considero-me Marinhão, apesar de não ter nascido na proa do Moliceiro. Se bem que as diferenças entre uns e outros não sejam assim tantas, até pela proximidade geográfica. Temos muito mais semelhanças com os Vareiros, do que com os Cagaréus (por exemplo). Não nasci em Ovar, mas as voltas da vida levaram-me à terra e dou-me muito bem com as suas gentes.

Foi com um ovarense que aprendi esta receita, que hoje vou partilhar e que garanto ser feita a rigor. Claro que haverá uma ou outra diferença, dependendo de quem a faz , mas apenas no que toca a quantidades, a tempos e a temperaturas (até porque fazem-se de vários tamanhos). Os ingredientes não variam.

É muito difícil garantir qual delas é a original, mas esta que eu faço saiu de uma das primeiras casas de Pão-de-Ló a serem certificadas, o que ainda assim não invalida o trabalho de outras casas. Quando falamos de Pão-de-Ló de Ovar, todo ele é bom e não tem nada que enganar, como vão poder constatar.


História:

"Não se sabe ao certo qual a origem da principal especialidade vareira mas a tradição da confecção deste Pão-de-Ló é bem conhecida desde os finais do século XVIII. Já nessa época, os ovarenses que trabalhavam nas fainas do Tejo levavam para Lisboa canastras de Pão-de-Ló, com que presenteavam os proprietários das fragatas. Actualmente, existem na cidade de Ovar várias casas onde se confecciona e vende esta doce especialidade, muito apreciada na companhia de um bom vinho fino."

Existem também registos do mesmo século, que apontam como primeira referência documental do Pão-de-Ló de Ovar, a data de 1781, nas actas da Irmandade dos Passos, como tendo sido o doce oferecido aos Padres que levavam o andor do Senhor dos Passos, na procissão.

O que vou escrever a seguir não é oficial, mas ainda assim acrescento-o, por achar que vem enriquecer a história deste doce. Desafio até a quem tenha mais elementos que possam enriquecer este artigo, o favor de se pronunciar.

Faz todo o sentido afirmar que esta receita, tal como a do Pão-de-Ló de Alfeizeirão (pelas suas semelhanças), tiveram origem conventual, mesmo pelas particularidades da receita, e tudo leva a crer haver-se tratado de um erro de forno e a sua retirada antes do tempo, que a inspirou. Daí a sua aparência húmida e abatida.

Não me atrevo, por falta de elementos de prova, a avançar qual dos dois apareceu primeiro, mas há um facto que não pode ser ignorado: Ovar não tinha Mosteiro! E mesmo considerando a sua proximidade aos domínios do convento de Arouca, essa teoria cai por terra, quando comparamos esta receita, com a do também famoso pão-de-ló de Arouca, que por sinal não é conventual. A receita do "Pão-de-ló do Convento" foi ultrapassada pela que hoje se comercializa, mas, segundo testemunhos de entendidos, não tinha nada a ver com o Pão-de-Ló de Ovar, como o conhecemos.
Faz mais sentido afirmar que a origem seria o Convento de Cós, um convento feminino nos arredores de Alcobaça, que dava apoio à casa mãe dos Monjes de Cister. Daí saiu o Pão-de-Ló de Alfeizeirao e muito provavelmente o de Ovar.

Verdade ou mentira, certo é que o Pão-de-Ló de Ovar adquiriu ao longo dos tempos a sua própria identidade, distanciando-se dos demais e fazendo-se merecedor da devida certificação.




(Imagem Google)

Ingredientes:

18 gemas
6 ovos inteiros
350g de açúcar
175g de farinha sem fermento
sal qb


Preparação:

Misture as gemas, as claras, o açúcar e uma pitada de sal, batendo com uma colher de pau (de preferência ranhurada), sempre para o mesmo lado, durante aproximadamente 30 minutos, ou até obter um creme espesso e volumoso. Junte a farinha peneirada, aos poucos e envolva suavemente com as mãos de baixo para cima, por mais 10 minutos. A este procedimento final, chama-se "apaziguar", que mais não é do que homogenar a massa.

Utilize um alguidar de barro para forma, com 30cms de diâmetro (pode usar uma forma menor, mas tem de diminuir as quantidades), forrando-o a papel de linho (preferencialmente), ou papel-cavalinho, de maneira a cobrir toda a superfície interior da forma e sem se preocupar que sobeje papel. Verta a massa na forma e leve ao forno previamente aquecido, a 175 graus, durante 45 minutos.

Nota: Mesmo que lhe pareça que a massa ainda não está totalmente cozida no interior, não se preocupe. Este doce fica bastante húmido, pela quantidade de gemas, o Pão-de-Ló deverá ficar com uma fina camada de ovo imediatamente a seguir à primeira crosta, que será mais visível no dia seguinte.

Bom apetite!

Francisco Vieira

20 comentários:

  1. Estava a ver que não!!!

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  2. Eusebio, va agora toca a meter a mao na massa!

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  3. Prefiro meter a massa na boca...

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  4. Huh?! Tas a brincar, nao? Tanto empenho a preparar isto e tu nem a tentar te dispoes? Ai o meu canario...

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  5. Ola Daniel, boa noite! Parece? E delicioso, querias tu dizer, oh confessa la :-)

    Abracos

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  6. sim é verdade.
    é muito bom mesmo....

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  7. Olá!



    Muito bem Sr. Francisco. O maravilhoso pão-de-ló de Ovar. Esse que faz a delícia das mesas portuguesas. Com as mesmas características do Pão-de-ló de Alfeizerão, destaca-se pelo seu paladar, fazendo jus ao estatuto que com o passar dos anos foi adquirindo.

    Pensa-se que a sua origem tanto do Pão-de-ló de Alfeizerão, como o de Ovar, esteja realmente ligada aos Conventos. Não é de todo impossível, muito pelo contrário. Faz todo o sentido. Era normal as moças da Ordem (criadas), regressarem ao seio das suas famílias, pela morte da monja sua senhora que normalmente lhe teria feito senão outros haveres, os bens pessoais. Dai o aparecimento em várias casas particulares de espólio de vários conventos. Desse modo, doçaria própria desses Mosteiros (cada um tinha os seus doces), apareceria em localidades onde na realidade nem sempre seriam pertença dessas mesmas. No entanto, o pão-de-ló de Ovar, não poderia ter origem no Convento de Arouca, porque as receitas não se assemelham de maneira nenhuma. A ser conventual, teria de estar relacionado ao Convento de Cós, até pela lenda que se conta.


    Diz a lenda que e um dia pela visita do Rei ao Mosteiro de Alcobaça, os monges teriam requisitado ao Convento de Cós Pão-de-ló para servirem ao Rei, dado o seu apreço por tal doce. Dada a urgência do pedido e a precipitação, não terão esquentado o forno convenientemente e por consequência o dito Pão-de-ló não terá cozido devidamente. Como o que não tem remédio, remediado está, a solução seria mandá-lo tal e qual. Como é característico nesse doce, o tempo após forno terá feito o restante, fazendo-o soltar as gemas mal cozidas que se transformaram numa espécie de ovos-moles. Ficaria o Rei tão maravilhado com o aspecto e sabor de tal iguaria que a partir daí viria a ser adoptado como o verdadeiro Pão-de-Ló naquela região.



    Parabéns Francisco, bem-haja

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  8. Manel, boa noite!

    Ora aí está uma opinião de quem tem obrigação de saber mais do que eu. Eu não me atrevo a adiantar nenhuma destas hipóteses, como sendo um dado adquirido, porque como refiro nopost , nada destas teorias estão documentadas, pelo que não passarão de suposições. Mas o teu comentário é muito pertinente, até por um outro aspecto. A confirmar-se a hipótese desta receita ter chegado até nós vinda de uma criada de alguma religiosa, regressada à terra depois da sua morte, então esta não viria seguramente do Convento de Arouca, para Ovar. Parte-se de um principio de que uma fidalga que entrasse para um convento, não iria para o mais próximo. Ou estarei errado? Diz la de tua justiça, uma vez que doces e Conventos são contigo :-)

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  9. Olá

    Olha, na realidade e pela lógica O Pão-de-ló de Ovar deveria ser oriundo do Mosteiro de Arouca dada a sua dependência administrativa do mesmo. No entanto, não lhe encontro características e por isso pensá-lo seria um erro. Penso sim que poderá ter tido origem no de Alfeizerão (Convento de Cós/Alcobaça.
    Quanto à proximidade do Mosteiro com a localidade de onde é oriunda a monja, nada tinha a ver com a sua entrada. Naquele tempo só os/as, oriundos da nobreza, tinham acesso aos mesmos, principalmente nos femininos onde essa questão era mais acentuada. As entradas neste ou naquele Mosteiro dependiam do seu estatuto social e poder e prestígio do Mosteiro. Concretamente no de Arouca, Mosteiro feminino com mais prestigio no Pais (De Cister), Só entrava quem de mais poder e nobreza.
    Mosteiro de Arouca por exemplo teve monjas dos mais diversos e distantes sítios de Portugal e até Espanha e creio que França tudo tinha a ver com o que já atrás mencionei. O facto do Mosteiro ser propriedade e residência da neta de D Afonso Henriques e Rainha de Castela (Santa Mafalda). Aliado há riqueza que possuía o Convento (mosteiro edifício, convento comunidade) tornou-o no mais procurado.
    Concretamente neste caso e relativamente à possibilidade do de Ovar ter origem no de Alfeizerão tem todas as possibilidades e probalidades. Suas características são tão iguais, tendo em conta como reforço a lenda, que nos é dado pô-las.

    Um abraço

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  10. Bem Manel, como disse antes, nesta materia o entendido es tu. No entanto eu nao me atrevo a adiantar nada para alem de possibilidades...

    Abraco amigo e obrigado pela tua opiniao, que enriqueceu este post, com certeza

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  11. hi.. just dropping by here... have a nice day! http://kantahanan.blogspot.com/

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  12. Ola Francisco,

    A minha alma esta parva... atao o dono do tasco virou doceiro... hummmmmm
    Fico muito agradecida aos "manos" pela partilha da historia do Pao-de-lo de Ovar.... mas ficaria muito mais satisfeita se tivesse pronto a comer :-)

    Beijocas

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  13. Bom dia Ana!

    Espera um pouco, que esta quase a sair do forno :-)

    Beijos

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  14. e melhor esperar sentada, para nao me cansar... ou entao ir comprar uma imitacao ali a esquina :-)

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  15. Ana, parece que es bruxa :-)

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  16. Um forte abraço pra ti meu amigo,,,e um belissimo dia de paz.

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  17. Obrigado Everson!

    Um bom dia para ti tambem.

    Abracos

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  18. Anónimo1/6/12

    De facto um artigo mto interessante!no entanto no que diz respeito a' receita e' a primeira vez que leio uma com manteiga e com a forma bem barrada.
    faco com regularidade este doce tao apetitoso (e sem falsa modestia), posso garantir que nao ficam nada atras dos que sao feitos pelas casas mais bem conceituadas da cidade de Ovar; mas nao lhe adiciono nem manteiga, nem forma barrada.

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Obrigado pela visita. Este espaço é seu. Use e abuse, mas com respeito, principalmente por quem nos lê. Francisco