Infantilidades...

Que eu sempre fui um pouco (???) assim para o rebelde, não deve ser surpresa para ninguém, mas a história que vos trago hoje, tenho de admitir que até a mim ainda me surpreende, mesmo passados estes anos todos, não tanto pela minha coragem, porque eu sempre fui assim meio pró tresloucado, mas pela proeza de ter convencido a minha mãe, uma senhora toda conservadora, a alinhar nela.
Então vejam:


Todos se lembram seguramente das roupas que obrigavam os miúdos a vestir no dia da primeira comunhão. Aqueles hábitos dos Monges, cor de café com leite, com um cordel amarrado na cintura e um enorme rosário pendurado, que até hoje me faz lembrar duas coisas. As autênticas batalhas que os putos travavam a malharem uns nos outros, com os ditos, durante a procissão do dia do corpo de Deus, e um outro rosário que por muitos anos esteve pendurado na parede, à cabeceira da minha cama, mas que eu, por volta dos meus 15 anos fiz "desaparecer" na arrecadação lá de casa, escondido numa caixa de sapatos, e que só muitos anos mais tarde foi descoberto. Nessa altura fiz uma decoração toda Vump ao meu quarto, com posters colados até ao tecto e claro que o rosário não ficava lá bem (não sei se estão a ver o filme).

Voltando aos hábitos da comunhão, aquilo a meu ver não tinha graça nenhuma, porque iam os meninos e as meninas em procissão, a subir o altar, todos vestidos de igual, qual ovelhinhas do mesmo rebanho, uns mais vaidosos com a fatiota nova, outros danados porque o hábito já tinha servido para os 9 irmãos mais velhos e estava farto de levar baínhas para cima e para baixo, que já não havia ferro de engomar que desse conta de as disfarçar. Por outro lado, tinha a vantagem de não permitir que se destinguissem as classes sociais. Fossem filhos de pobres ou de ricos, naquele dia os meninos eram todos iguais.

Claro que a seguir ao 25 de Abril, escancararam-se as portas todas, as mães começaram a fazer pressão e o senhor padre cura teve de ceder às novas modas, abolindo a obrigatoriedade dos hábitos. A partir daí, naquele dia, a igreja começou a parecer mais uma passagem de modelos, do que outra coisa.

Chegou o ano de eu comungar! A minha mãe começa-me a falar no fato, leva-me a duas ou três boutiques que na altura se especializavam na coisa, comunhões, baptizados e casamentos. Toca a provar fatos e eu a dizer que não ia de fato e a minha mãe a dizer que tinha que levar fato, porque todos os meninos comungavam de fato e que se eu não quisesse ir de fato, tinha que levar o tal hábito de monge que depois passou a ser usado apenas por aquelas famílias mais tradicionais em que os meninos eram todos queques, mas que naquele dia eram gozados pelos outros putos todos, de manhã à noite e nos (muitos) dias a seguir.

Andava eu com o coração mais negro do que uma amora, farto de espraguejar por entre os dentes, porque tinha que escolher entre o raio do fato, ou a merda do hábito, sujeitando-me a ser gozado por os meus colegas, até se fartarem, quando um dia, surpreendentemente se fez luz.
A minha tia, que era modista, apanhou-me um dia lá em casa dela e disse-me assim: Oh Francisco, ainda aqui ver este catálogo estrangeiro e diz-me se gostas da roupa de algum destes meninos, que a tia convence a tua mãe e faz-te uma igual para o dia da tua comunhão.
Oh tia abençoada! Oh que maravilha de catálogo! O primeiro modelo que vi gostei logo e já não quis ver mais nenhum.

A foto mostrava um puto mais ou menos da minha idade, todo hippie, com uma calça à boca de sino, de um tom creme escuro, um colete preto de veludo e uma camisola de malha fina assim num branco sujo, de gola alta e manga comprida. Estava feito! Era aquilo! Fomos falar com a Ti Angelina (com muito pouca fé), que para espanto da minha alma, respondeu: Se é isso que ele quer, pois que seja, que já não estou para o ouvir!

Pronto, a tia fez o colete e as calças, comprou-se a camisola, o cinto e uns sapatos pretos de plataforma, que era a moda na altura e que a mim fizeram um jeitaço (se hoje tenho 165cms, imaginem naquela altura), mas que praticamente não se viam, tal era o "sino" da calça. Sentia-me como se pertencesse aos Beatles, com aquela fatiota e o meu cabelo compridito, assim a modos que a cobrir a orelha...

Não imaginam o que gostava de ter essa foto hoje, para postar com este texto, mas essas recordacoes estão todas com a minha mãe e ela enquanto for viva não as dá a ninguém. Lembro-me que foi o primeiro dos dias mais felizes da minha vida. Nessa noite nem dormi, a olhar para a roupa passadinha a ferro, estendida em cima do sofá.

Saí de casa todo catita e entrei na igreja de peito feito, com a certeza de que estava toda a gente a olhar para mim.
Os meus colegas todos de fato e gravata, à velhote, e eu a sentir-me o melhor da minha rua, por nunca se ter visto um puto comungar naqueles "preparos". Só que a alegria durou pouco. A seguir entra o Arlindo, que tinha vindo da Alemanha, fazer a primeira comunhão. Imaginem como vinha vestido?

Pois...Calça e colete preto! A única diferença era que, em vez da camisola de gola alta, trazia uma camisa branca toda apaneleirada, cheia de folhos no peito, que saíam por fora do colete, e um lacinho preto ao pescoço. Parecia aqueles velhos nobres que aparecem nos filmes de época, ou o Mozart, ou o caraças.
Fiquei sem ponta de sangue nas veias. Só me apetecia ir-me a ele e rasgar-lhe os folhos todos. Ora eu ali todo contente por estar diferente dos outros, e tinha que vir aquele bardameco de tão longe, estragar-me o dia!

Depois da missa, que naquele dia parecia que nunca mais acabava, viemos almoçar. A procissão começava às 15 horas, por isso não havia tempo para grandes festejos. Toda a gente sabia disso na terra e por isso só ao jantar é que se juntavam a família e os amigos, para festejar o acontecimento. Bem, toda a gente sabia, menos a família do Arlindo, aparentemente...

Já a procissão ia no adro, os meninos todos em fila indiana, com as mãozinhas unidas em jeito de oração (tão lindos), como a catequista nos tinha ensinado, a receber as santinhas de papel com as mensagens do costume, tipo " que nunca esqueças o dia em que provaste o corpo de Jesus pela primeira vez" e a seguir a data e a assinatura da pessoa que oferecia (ainda deve existir o álbum lá por casa, cheio delas), quando se avista ao longe o Arlindo (a reboque) pela mão da mãe, de lágrimas nos olhos. Tinham-se atrasado no almoço. Olhei surpreendido para a sua camisa, que já não era branca, nem tinha folhos.

Juntou-se a nós na procissão e vi que segredava algo ao meu amigo Gonçalo, que ia ao seu lado e que depois de o escutar, me olhou com aquele olhar matreiro e me piscou o olho. Não foi preciso dizerem-me nada, para eu perceber que o Arlindo tinha almoçado com a camisa vestida e tinha derramado molho por cima dos folhos.

As crianças por vezes conseguem ser muito cruéis, não conseguem? Se vos dissesse aqui que senti pena dele na altura, mentiria.
O Arlindo nunca deixou de andar na Alemanha. De anos a anos encontramo-nos na terra e bebemos uns copos. Ainda falamos de vez em quando sobre os tempos de infância e até já falamos sobre os coletes pretos de veludo da primeira comunhão, mas da tal camisa branca aos folhos nunca se falou...

Francisco Vieira

44 comentários:

  1. Ó Francisco, esta tua história lembrou-me aquela série que dava na RTP1: "Conta-me como foi". Ainda me ri aqui feito parvo. Muito bom. A criançada é o máximo, man.
    Abraço.

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  2. eh eh eh boa noite Cat! Riste-te feito parvo nada! Riste-te porque a coisa tem graca, oh confessa la :-)

    Eu ainda nao parei de me rir, desde que a postei eh eh eh

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  3. Boa noite!!

    Se queres que te diga, não me lembro como ia na primeira comunhão. E devia, pois até foi a única.

    Mas devo ter as fotos lá por casa da minha velhinha, um dia destes vou surpreendê-la e folhear os álbuns. Vai ficar toda contente!

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  4. Cirrus, boa noite.
    Pois eu tambem nao tenho nada dessas recordacoes. Tenho mas e uma memoria que nao para de me surpreender. No entanto, tenho de me esforcar para me lembrar o que almocei ontem :-)
    Abraco

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  5. E eu que achava que era rebelde na infância.
    Bjs.

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  6. Fatinha, boa noite. Todos eramos, creio :-)
    Beijos e boa semana

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  7. Francisco, gostei das cores do blog, que me fazem lembrar aquilo que de mais importante temos depois da família. E gostei do poema.

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  8. Cirrus, obrigado. Deu-me para isto hoje :-)
    Sim, primeiro a familia, depois a patria e o resto é paisagem

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  9. Ora aí está, não poderia concordar mais. E quem assim não for... temos pena.

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  10. Eh eh eh eh olha la, ja leste a estoria da Rosalina? Ali em baixo, na segunda parte do post de ontem :-)

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  11. Ouve, andas às voltas com os deuses, mas tu és dos poucos que penso se terem a percebido do enorme embuste que este deus é. Uma criação reles dos homens para os homens.
    É como dizes, a haver Deus, que seja mais do que isto que nos ensinam.

    Foi só um desabafo. A resposta à Rosalina está lá em baixo.

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  12. Agora vou para a cama, que são duas da manhã!!

    Boa noite!

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  13. Nunca puz em causa a existencia de algo muito superior a mim, mas isto que me querem enfiar pelos olhos dentro, nao me passa de maneira nenhuma. Ja estou como tu...temos pena!

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  14. oh Francisco, já te estou a imaginar de calça à boca de sino, já eras todo fashion à época?! eh eh eh ... isto para não falar no sapatinho de plataforma. ah ah ah ah

    Tens que pedir essas fotos à tua mãe, deves estar muito bem :-)

    Boa semana.

    Um grande abraço

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  15. Esta coisa da diferença de fusos é confusa e parece que postas 2 ou 3 vezes por dia...

    Eu não percebo nada disso da comunhão mas pelas minhas contas quando tu comunhaste já andávamos pelos anos 80 mas de modas não percebo nada.

    Um bom dia para ti r um abraço

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  16. Obrigado por teres feito com a que a minha semana tivesse início com umas boas gargalhadas.

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  17. Você é ímpar, Francisco!
    Que texto cheio de encanto e diversão.
    Que rebeldia gostosa...
    E, contada assim, desta maneira, nem parece aquele menino que há dois dias atrás rezava fervorosamente a Deus.
    Beijinhos para si e uma segunda cheias de alegrias

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  18. Eh! Eh! Eh! O que eu me ri! Mais do que imaginar-te vestido com um fato de inspiração hippie, foi mesmo imaginar-te com cabelo. E até às orelhas!!! ;)

    Mas esta história vem ao encontro de uma conversa que tive ontem de manhã com a professora do meu filho (que é freira) à porta da capela do colégio (ontem foi dia da Missa mensal). O meu filho vai fazer a Primeira Comunhão este ano e quer ir vestido com a farda dos Escuteiros (o miúdo tem um orgulho na coisa, que só visto!). A irmã ficou a olhar para mim e disse-me que normalmente os miúdos vão de fato. E eu perguntei-lhe se ela consegui imaginar o meu filho de fato.

    Obviamente que não! E logo sendo ele filho da mãe dele! Ok, sou toda armada em diva, mas uma diva nada formal. Para teres uma ideia, eu não tenho nenhum fato calças-saia-casaco.

    A irmã disse-me que teria de falar com a outra professora do 3º ano (que não é freira), pois gostam de acertar tudo entre as duas, e que depois me diria alguma coisa!

    Mas sabes uma coisa? Tenho a sensação que a minha pipoca macho irá mesmo fardado! E quase que aposto que esta conversa de ontem fará com que duas outras miúdas de lá também irão!

    É por estas e por outras (bem piores!) que dizem por lá que eu sou uma autêntica herege!

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  19. Bom dia Jesus! Ja cheguei a postar 3 e 4 vezes por dia, quando tinha tempo. Se fores ao mes de Agosto ves 112 posts. Actualmente posto uma vez por dia. Vou preparando o texto aos solucos e posto ao virar a meia noite.

    Liguei agora a minha mae, para te poder dizer a data exacta. Comunguei em Junho de 1976.
    Um abraco

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  20. NI, bom dia para si. Ainda bem que sorriu por minha causa :-)
    Um beijo e boa semana para si.

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  21. Bom dia Malu! Digamos que sou temperado :-)
    Que diz o meu perfil? "Algures, entre o mel e o fel" eh eh eh eh
    Um beijo para si e nao trabalhe muito

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  22. Story, bom dia! Se os putos quiserem ir fardados, deixem-nos ir fardados! Que mania de contrariar as criancas, pa! :-)
    Beijos e boa semana

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  23. Ze joao, eu sou fashion! eh eh eh eh
    Bom dia , amigo e um abraco :-)

    Ps: ja podias ter uma foto no perfil, pa! Ficas sempre para ultimo, porque passas despercebido

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  24. Bom dia Francisco,

    Ja tou roidinha de curiosida para ver essa foto... o menino Xiquinho todo fashion, de plantaformas e com cabelo, ahahahahah

    Jokas
    Ana

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  25. Ana, bom dia! Deixa que daqui por uns dias ja ponho aqui a foto, para nao pensarem que estou a inventar :-)
    Um beijo

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  26. prontos, prontos retiro o que disse, eu aguento a curiosidade, nao precisas de ir a Portugal buscar a foto :-)

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  27. ah ah ah ah ah eu sei que nao preciso, entao para que existem os correios?
    So que a Ti Angelina nao ma mandava...terei que lha "roubar" por umas horas, para duplicar. Refiro-me a uma que esta encaixilhada la em casa, porque as outras ela tem trancadas a 7 chaves e nao da a ninguem. Mau feitio...sai ao filho :-)

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  28. ahahhahah mas tenta roubar sem ela dar conta, senao ja sabes, se tem o feitio do filho uiuiui :-)

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  29. Pois...o filho realmente nao e flor que se cheire...

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  30. nao sei, ainda nao te conheco... apesar de ter a mania de dizer ke te conheco um cadito ehehehehhe
    Mas a ti-Angelina deve ter melhor feitio ke o filho :-)

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  31. Ja estou farto de dizer aqui que supomos que conhecemos as pessoas eh eh eh

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  32. senao te conhecia careca, agora de bone muito menos, com um ar todo chique ahahahhha

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  33. Lol, Ana, bones ha muitos :-)
    Essa cabidela sai ou nao?! Estou com uma fome que nem vejo :-(

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  34. ahahahah kal cabidela, mas tu so pensas em comida :-)

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  35. olha se falas de novo na cabidela, nao tarda nada ta o Joao aparecer com o cheiro :-)

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  36. O Zejoao que va comer pra casa dele, que daqui nao leva nada :-)

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  37. oh Joao vais ter mesmo ke te contentar com o cheiro ahahahha
    para a proxima faco mais um cadito :-)

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  38. Olá! Olá!
    Hoje tem estado difícil pôr os meus lindos pés aqui. Mas finalmente cheguei! Ok, já cá estive de manhã, mas estive ausente durante umas horas...

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  39. Ola Story, boa noite. Tambem so vim aqui agora. Estas bem?
    Beijos

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  40. E porque nao dormes, mulher?

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  41. Então e a cabidela?

    Oh Ana, ainda estou à espera, o vinho já o bebi, claro, ainda ficava estragado... eh eh eh

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  42. Oh Xiquinho, então mandas aqui o teu amigo comer em casa? Não faço eu outra coisa, eh eh eh...

    Um abraço

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Obrigado pela visita. Este espaço é seu. Use e abuse, mas com respeito, principalmente por quem nos lê. Francisco