UMA ESTRANHA FORMA DE VIDA



Vai fazer dez anos no dia 6 e parece que FOI ONTEM que Amália Rodrigues mudou de casa. Digo assim por considerar que AMÁLIA não morreu. As estrelas não morrem, mudam de lugar, mas continuam a iluminar a terra e a embelezar o céu. Estará algures noutra constelação, local a que sempre pertenceu, por nunca se ter sentido em casa, neste mundo cruel, que se por um lado a idolatrou, por outro a tratou muitas vezes com CINCO PEDRAS NA MÃO.

Nasceu do nada, nunca quis ter nada, nunca pediu nada, a não ser palmas. Palmas e flores, carapaus fritos, ou pataniscas de bacalhau. Disso foi farta. O seu público, mesmo aqueles que a criticavam, que invejavam o seu sucesso, tinham que se render perante a grandeza dessa mulher de palmo e meio e aplaudi-la de pé. Ela que foi senhora sem mordomias, que foi rainha sem coroa, vedeta sem vaidades.

Trouxe para o fado a frescura do campo, a garra de mulher beirã, a voz feita de pranto e de saudade. Tendo o mundo a seus pés, nunca deixou de se sentir órfã da vida. Tendo tudo, achou-se muitas vezes nua de felicidade e de alegria. Provou o AMOR DE MEL, mas também de fel, sem no entanto se deixar vencer pela TRISTE SINA que muitas vezes lhe tentou trocar as voltas. Cantou o amor sofrido e a saudade. Deu voz aos poetas tristes e aos seus desgostos, por ser neles que se revia, e as suas palavras que a ajudavam a DAR DE BEBER Á DOR.

Cantou nos melhores palcos do mundo, para intelectuais, doutores e estadistas, jantou com reis, foi cortejada por nobres. No entanto nunca deixou de cantar na rua, para o povo, talvez por ter sido pelo povo que se sentiu verdadeiramente amada. Gerada do BARRO DIVINO, de um POVO QUE LAVA NO RIO, nunca negou as suas origens. Talvez por isso, em determinada fase da sua vida, enquanto uns a perseguiam e outros lhe viravam as costas, foi o seu povo, as suas raízes, que a acolheram e motivaram.

Deu voz á alma portuguesa, destino que foi seu e que abraçou como missão. COM QUE VOZ chegou desde o cais de Alcântara, até ao Japão. Essa voz que cantando o VERDE LIMÃO e o MALHÃO DE ÁGUEDA, conquistou primeiro Portugal e depois o mundo. A voz que lhe vinha das entranhas e que encantou multidões, sem nunca ter aprendido a cantar. A voz que está gravada em vários idiomas, sem nunca ter tido uma aula de línguas. Nunca percebeu muito bem a causa de tanto sucesso, tendo acreditado sempre que FOI POR VONTADE DE DEUS.

Deixou por herança, a sua casa aberta ao público a quem amou, como sempre esteve, qual CASA DA MARIQUINHAS, quando á sua porta batiam escritores, músicos, fadistas e admiradores, a quem sempre recebeu de braços abertos, como se de família se tratasse. Aquela que de dia foi FILHA DAS ERVAS, que cantarolava nas hortas e nos campos a apanhar flores, que encontrava ânimo também na beira do Tejo a apreciar uma GAIVOTA poisada na proa de qualquer BARCO NEGRO, era na noite que se revelava. Chegasse a MEIA NOITE E UMA GUITARRA, e a Amália entregava-se ao fado e á poesia, misturando Camões com os poetas populares, até que o CANSAÇO ou uma LÁGRIMA a fizesse parar.

A casa está intacta, exactamente como no dia que a deixou. Os moveis, os vestidos e jóias de cena, a que chamava de bugigangas. Uma artista do seu nível, nunca usou um vestido de estilistas famosos. Desenhava-os ela, com a ajuda da modista que por varias décadas os costurou. Nunca colocou qualquer exigência de vedeta a quem a contratou, nunca teve um cabeleiro ou um maquilhador de camarim. Apesar da sua extraordinária carreira, repleta de incontáveis sucessos, Amália nunca deixou de ser uma humilde encarnação da modéstia, da amizade, do amor ao próximo, ao fado e á pátria. A esta terra que nem sempre a mereceu.

Teve por companheira a SOLIDÃO e o MEDO. Tratava as suas mágoas por DESTINO OU MALDIÇÃO, por AVES AGOIRENTAS que lhe roubavam o sono e o sorriso e lhe entristeciam os dias, provocando-lhe um sentimento de ABANDONO, mas nunca se deixou vencer. Encarou sempre o futuro como uma nova PRIMAVERA.
O seu canto mais não era do que um GRITO que lhe vinha da alma, e que encantou o mundo, que nunca a compreendeu, mas que soube demonstrar o apreço e amor a esta grande mulher e á sua ESTRANHA FORMA DE VIDA.



20 comentários:

  1. Uma grande senhora, 10 anos de saudade!

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  2. Aprendi a cantar fado com a Amália Rodrigues.
    Vc sabe eu canto? Que eu encanto vc já sabe!kkkkkkk
    Estudo canto lírico desde os meus 14 anos.Sou soprano dramático, quase uma Jessy Norman.
    Bjs.

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  3. Olá Francisco !!!

    Resta-nos a sua música para matar-mos saudades.
    Bom fim de semana e bom feriado.

    Abraço

    Norberto.......(Pombo):)

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  4. Bom dia Francisco

    Bonita homenagem que prestas a grande Diva do Fado - Amalia Rodrigues.

    Jokas
    Bom Fim de Semana

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  5. Obrigado pela sua vida amigo. Achei muito importante seu Blog vou continuar sempre passando aqui no seu espaço. Um abraço de Manoel limoeiro de Recife-PE. Nordeste-Brazil.

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  6. Olá Francisco!
    Embora não aprecie particularmente o fado cantado por Amália, reconheço nela uma grande força de viver e, para todos os efeitos, é um ícone.
    Gostei da forma do teu texto.
    Beijo amigo

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  7. Boa tarde Cirrus. Não foi uma mulher grande, mas uma grande mulher...

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  8. Fatima, que bom que voce faz algo que gosta. A Dona Amalia foi grande no Brasil, como em qualquer parte do mundo. Beijos

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  9. Norberto, disso todos os "Amalianos" são fartos. Deixou a sua voz registada em todo o mundo e a maioria nem conhece um décimo da sua obra...
    Abraço e bom fim de semana

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  10. Ana, dizes bem. A GRANDE DIVA DO FADO. Nunca mais teremos outra.
    Uma beijoca

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  11. Manoel Limoeiro , seja bem vindo a este canto e volte sempre.
    Abraço

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  12. Bruxinha, gostos cada um tem os seus, amiga. Mas Amalia não foi apenas um ícone. Ela é "o ícone"!!! Nunca tivemos outro. Falta-lhes originalidade para se descolarem da "mestra" :-)

    Beijos para ti

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  13. Uma homenagem justa e bonita! Um bj Graça

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  14. Obrigado Graça. Bom Domingo para si e uma beijoca

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  15. Francisco

    Indiquei um selo para você, lá no meu Blog.

    Abraços

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  16. Gilson, espero que você não se aborreça, porque talvez para você seja surpresa e difícil de entender, mas eu não publico selos. Não quero com isto dizer que não os aprecio, mas por culpa de algo que aconteceu logo no inicio deste blog, optei por este postura e agora aceitar algum seria uma afronta para os outros bloguistas que já mos ofereceram no passado. Por isso criei o espaço de destaque ali ao lado, com que vou de certa forma retribuindo a vossa atenção e amizade. Mas agradeço-lhe do fundo do coração.
    Um abraço para si amigo e bom Domingo

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  17. Olá Francisco


    Hoje sim, mais do que nunca, teria muito a escrever sobre o tema. A voz me embarga e o pulso me treme. Não conseguiria mais do que um simples balbuciar!
    Numa coisa estou em desacordo contigo. AMÁLIA não é uma Estrela. AMÁLIA é a própria constelação. Indivisa sim, mas uma divindade que se afirma numa só pessoa.
    AMOR, SIMPLICIDADE E PAIXÃO. Uma trilogia que se expande em pequeníssimas Estrelas mas grandiosas no seu brilho e se constituem, numa abrangência Universal, bem visível por todos nós, irradiando luz por todo o Firmamento.
    Não seria correcto eu homenagear aqui, Essa Grande Senhora, as Divindades não se homenageiam, veneram-se! Fica a minha genuflexão.
    Faço-te a ti uma grande homenagem pelo facto de aqui A trazeres a veneração.

    Um abraço

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  18. Manel, subscrevo o que dizes. Talvez lhe retirasse a "divindade", mas se a sentes assim, será válido. Obrigado pela parte que me toca e por comungares comigo desta paixão por Amália.

    Um abraço

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  19. "Sou flor de Primavera
    Sou sonho de Verão
    Planície aberta
    Prai deserta
    Que espera
    A tua mão"
    (Amália Rodrigues)

    O melhor em Amália é forma como falava das coisas, a sua sensibilidade como ser humano e o imenso amor que sentia pelos outros.
    Encontrei-a pela primeira vez quando eu era ainda quase criança. Conheci a mulher e a voz, ambas me entusiasmaram de forma que não sei explicar.

    Abraço

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  20. Paulo, ja deu para percebeu o seu amor pela nossa diva. Bem haja por isso e obrigado pelo video que me recomendou.
    Abraço

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Obrigado pela visita. Este espaço é seu. Use e abuse, mas com respeito, principalmente por quem nos lê. Francisco